O que dói

Foi um grito.

Sangrava há seis meses. Mas eu não via. Eu apenas sentia.

Você cortou meu cordão umbilical com meus mais ingênuos sonhos. Arrancou de mim a minha criança, a minha fé.

Hoje sou capaz de enxergar o que passei vinte e nove anos da minha vida ignorando e que eu gostaria poder continuar desconhecendo: a dificuldade humana de viver um amor.

Viver. Sentir. Ser.

Um dia eu te amei com todo o meu coração. Com tudo o que eu tinha e também não tinha para dar a alguém. Eu forjaria todo o necessário para viver ao seu lado, com você.

Eu fiz muito por você, pela sua família, pelo seu trabalho, mas nada disso verdadeiramente me importa. São passagens que só me mostram o quanto eu, taurina sagitariana, fui capaz de dar por amar.

Eu te idolatrava. Andar com você, ser amada por você, ser validada por você era uma força motriz que me movimentou por um profundo caos durante dois anos.

Eu largaria a cidade. Eu viveria uma vida simples. Eu abriria uma agência lotérica. Eu ouviria suas longas histórias todas as noites. Eu dormiria em um colchão velho... só pra estar ao seu lado. Eu trabalharia onde nunca quis para ser independente financeiramente. Pra ir embora com você.

Hoje eu sei o que é a paixão. Ela te impulsiona e te afoga com a mesma força. "Deus, muito obrigada por me dar a oportunidade de conhecer, sentir e viver essa paixão." "Deus, eu nunca gostaria de ter conhecido essa paixão."

Parecem dois lados da mesma moeda, mas não são. São distâncias que me modificaram para sempre.

Hoje eu me olho no espelho e tento esconder de mim uma parte de mim mesma. Olho meio de lado, de canto, como que em um relance, para não precisar enxergar o que está tão escancarado na minha mente.

Voltar para muitos pode significar perdão. Voltar, para mim, foi ignorar e colocar para debaixo do tapete da minha alma algo que eu sei que eu não sou capaz de ultrapassar. Eu sei que, de alguma forma, eu sempre vou estar ligada àquele momento. Não a todos os finais de semana nos quais você sistematicamente me enganou e me traiu. Mas a quando eu me atirei à verdade.

Eu sei que fui eu. Não foi mais ninguém. Não foi um anjo. Não foi Deus. Não foi um amigo. Não foi minha família. E também não foi você. Fui eu que decidi me confrontar com a verdade. Não sei se por coragem ou por não ter mais forças pra sustentar a dor de viver uma dor sem saber o porquê.

O que nós vivemos hoje eu não sei se é uma segunda chance. Em uma segunda chance ambos estão emocionalmente dispostos a se entregar e eu não estou disponível. Acabo por me colocar na berlinda novamente ao me arriscar a um reiterado e aprofundado sofrimento, mas o duro é perceber que faço isso sem acreditar em um destino mais honesto. Sem acreditar nem em você nem em nós.

E eu sei que isso é o mais me dói. Não é enxergar quem você é, mas sim quem provavelmente nós nunca seremos.

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