Todo o necessário

Quarta feira, 16h30: estou passando mal, tem uma mesa em Niterói daqui a duas horas e quero te indicar, o que acha?

Não acredito. Estava no Rio, esperando uma amiga com quem marquei há uma semana para comemorarmos o aniversário dela. 

Por que avisou só agora? Que desrespeito. Não vou. Não posso passar a mensagem de que posso apagar incêndios a qualquer hora ao seu bel prazer. Nunca me chama e agora em cima da hora... o que vou falar? Como vou me preparar? Não vou.

Não vou poder, estou no Rio, se soubesse antes teria me organizado. Emoji com cara de choro.

Minha amiga chega, sentamos para tomar um café e conversar. Não se passa nem uma hora e ela diz que precisa ir embora. Vou ao ponto de ônibus com ela e ela me diz que posso ir, que seu ônibus vai demorar. Digo que estou com tempo e espero. O ônibus dela chega em dois minutos.

Vou para as barcas: 17h30. Mesmo não tendo desmarcado o compromisso com minha amiga, daria tempo de chegar ao evento. Sento, irritada e começo a pensar.

O que eu falaria assim, de sopetão, sem me preparar? O tema é o que eu respiro em termos de pesquisa..., recapitulo e tento? Que loucura... Mas por que loucura se é basicamente sobre isso que eu falo o tempo todo? Será que não consigo organizar alguns pensamentos na hora? Me bate uma sensação de "como não vou falar?", "como vou perder a oportunidade de falar?". Eu vou.

Mando mensagem e aviso que vou. Procuro no meu celular um artigo que tenho publicado, com uma parte dos resultados da minha pesquisa de mestrado. Pego o único papel que levei para a rua aquele dia, começo uma leitura transversal e anoto o que considero mais importante. Relembro: estou pronta.

Chego em Niterói, pego o endereço, entro no táxi e chego. Vou ao banheiro, faço um xixi, me arrumo suando, porém certa. Entro na sala, "você é a Sandra? Prazer, vim no lugar da fulana". "Caramba, como você é rápida, ela acabou de me avisar." "Pois é."

"Anota seu nome aqui e sua descrição. Você trouxe slides?" "Não, não tenho slides, estava no centro agora há pouco e não tenho nada remoto, mas não tem problema". "Tem certeza? Quer pedir a ela?" "Não, está tudo bem, eu falo sem slide mesmo". "Mas tem certeza? Se não quiser não precisa (falar)..." "Tenho certeza sim, estou bem".

Dou duas direções de fala pra ela e ela escolhe que eu fale sobre o Direito, que foi meu objeto de pesquisa. Tudo certo. Sento e sou a primeira a falar. Falo. Sem microfone. Falo, gesticulo, faço pausas, interajo e vou traçando aquela linha de raciocínio como se tivesse me preparado bastante para aquele momento.

Acho que me preparei, no fim das contas. Finalizo dizendo algo como "esse é o Direito, desculpa, obrigada." Aplausos. Sinto que passei o recado. Sinto que passei o incômodo. Sinto que passei a realidade.

Eis que ali, naqueles vinte e pouquinhos minutos, eu coloquei pra fora o que lá na barca eu tinha me questionado "como assim vou perder a oportunidade de falar?". Não perdi. Ganhei.

Ganhei alguma experiência e traquejo, mas mais do que tudo ganhei a minha confiança em mim mesma. Ali, de pronto, com um pouco de desencorajamento alheio, sem slide, com um pedaço de papel, era eu e eu mesma: e isso é tudo o que eu preciso para falar. Venci.

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O denominador comum

Aquela carta que eu escrevi e que ele provavelmente nunca leu porque era covarde e sabia que ali tinha uma fração do que eu sabia, que era também uma fração do que realmente acontecia. Devolvi os presentes com a carta, sentimentos à descoberto.

Acabei voltando depois, por ainda estar funcionando no compasso da engrenagem que fez aquele relacionamento ser possível: a minha insegurança. Minha mãe sempre me disse: se você tivesse forte quando o conheceu, vocês nunca teriam namorado.

Hoje o texto não é sobre culpa, porém, é sobre responsabilidade. Não sobre o passado, mas sobre o presente.

Eu sustentei um relacionamento ruim, tóxico, devastador e adoecedor; um relacionamento que não apenas não me dava as mãos, como também apodrecia as minhas raízes. Sustentei até não conseguir mais - e que bom que uma hora eu não tive como continuar.

Após o término, veio o luto. Doía, dilacerava. Era uma mistura de certeza da minha decisão e um vazio profundo. Muito ressentimento e também muita tristeza. Hoje, um ano depois, não sinto falta de mais nada daquele relacionamento, mas ainda restam peças do quebra cabeça a serem encaixadas do por quê eu sustentei aquilo por tanto tempo e também do por quê estou reclusa na minha vida, agora, um ano depois.

Acredito que seja esse mesmo modus operandi. Um eu contra eu mesma. Naquela época eu me agarrei nele porque acreditava que era o que havia de melhor para mim. Hoje, me agarro em mim mesma com medo de que qualquer coisa fora da minha zona de temperatura e pressão vá me desarticular. No fundo, sou eu evitando a mim mesma; sou eu evitando viver a mim mesma em pleno potencial.

É medo? Sim, mas também parece ser mais do que isso. Parece ser um medo que virou uma maneira de pensar, de sentir e de estar no mundo. Parece um medo que se incrustou no meu comportamento de uma forma que, se não contestado, poderá ele ser meu próprio algoz. Aí não precisarei de um relacionamento ruim, tóxico, devastador e adoecedor, porque eu mesma estarei fazendo todo esse desserviço sozinha.

É hora de parar e analisar a mim. Já entendi quem são eles. O ex, a avó, a coach, eles todos são terrivelmente eles. Mas cadê a outra parte dessa equação? Está na hora de fazer a parte mais difícil dessa análise: encarar a mim mesma.

O outro pode ser extremamente perturbador e ameaçador, mas vejo que nada pode destruir tanto a mim mesma quanto eu e está na hora de enfrentar isso.

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Na sua história

Era uma vez uma menina presa injustamente.
Era uma vez uma mulher experiente.
Era uma vez moças inexperientes.
Era uma vez a Cris, o juiz, a conversa, o relaxamento, a liberdade.
Na sua história, você é a sua Cris?

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Amor platônico

"Gratidão" é uma palavra muito usada atualmente. Geralmente utilizada por aqueles que querem pregar que gratidão é a chave para conquistar mais da vida, como uma espécie de imã que atrai realizações.

Hoje acordei cheia de gratidão, mas não essa.. Acordei com o coração realmente muito agradecido à Deus, às Deusas, aos meus guias, anjos, energias. Algo muito genuíno e nem um pouco parecido com aqueles mantras de gratidão forçados, que você entoa no intuito de alguma outra coisa. Não... eu simplesmente acordei muito agradecida mesmo.

Eu acordei e lembrei que era sábado, que eu ia finalmente fazer uma massagem, algo para mim, nesse meu corpo que tem estado tão dolorido da lombalgia que gritou, de maneira nem um pouco tímida, no fim do ano passado. Fiz a massagem e foi maravilhosa. Fazer algo por mim, estar com minha família, estar com saúde, estar lutando para recuperar todas as minhas capacidades físicas, emocionais e mentais é maravilhoso. Poder fazer isso é de um privilégio enorme e hoje eu estou muito, muito grata.

Agora há pouco coloquei um cd da Tony Braxton que eu escutava muito quando era mais nova, enquanto chorava pelos meus amores platônicos. Como eu já sofri ouvindo essas músicas, porque eu amava... amava muito. E, sejamos sinceros, eu fui assim até pouco tempo.

Hoje, não. Hoje eu canalizo todo esse amor, todo esse cuidado e carinho pra mim e pra minha família. Acho que eu finalmente aprendi algumas coisas na vida. Claro que qualquer relacionamento é um desafio e traz os testes e provas da vida, mas há muito tempo... quer dizer, acho que nunca me senti verdadeiramente bem "sozinha" como eu me sinto agora.

Quando eu era mais nova eu queria tanto um namoro. Como queria... fui ter essa experiência lá pelos dezenove anos e até aí eu dormia e acordava fantasiando como eu seria feliz com um namorado. Meus amores e relacionamentos platônicos duravam anos e anos. Eu cheguei a ter um namorico rápido lá pelos dezesseis anos (se não me engano a idade), mas foi só mesmo até que eu engatasse um namoro sério aos dezenove.

Ficamos dois anos juntos e terminei porque já não sentia aquela coisa de homem e mulher, mas mesmo assim passei dois meses na fossa, depois de uma viagem internacional, por ter perdido meu melhor amigo. Me recuperei e segui a vida, sofrendo pelo que hoje chamamos de "crushes" e naquela época chamávamos de "ficantes". Lá pelos vinte e dois eu comecei a namorar um garoto que eu nem gostava tanto, mas que estava apegada. Ficamos namorando dois anos e ele terminou comigo. Sofri horrores durante quatro meses. Ao voltar pra "arena do amor", logo conheci meu último namorado, com quem fiquei, ao total, três anos, e com quem terminei há cinco meses. 

Desde então decidi que iria aprender a me amar e acho que vem muito daí essa gratidão. Quando eu consigo fazer algo única e exclusivamente para mim, que me dá muito prazer, também me dá muita gratidão. Internamente eu olho pro céu e penso: "obrigada, Deus, estou me encontrando".

Lembro daquela menina sofredora, sonhadora, cheia de medos e anseios na bagagem. Vejo na frente dos meus olhos aquela menina que passou por tantos relacionamentos que não a fizeram jus, que a machucaram, que fizeram-na inúmeras cicatrizes, e consigo entender o por que desse caminho. Consigo entender que um dos paranauês que eu vim resolver aqui, nessa minha alma originalmente ingênua e que gratuitamente confiava nos outros, é que a confiança tem que ser em si em primeiro e último lugar. Há amor? Há, mas o próprio é pré-requisito de qualquer história que se possa viver, em qualquer seara da vida.

Eu ainda estou construindo minha história. Deus sabe o quanto eu pelejo diariamente com meus medos, minhas inseguranças, minha ânsia de descobrir no quê raios eu vou contribuir para este mundo, com minha paixão por fazer dessa terra um lugar melhor, mas estou entendendo, cada vez mais, que momento "a-há" é uma construção (ou desconstrução, em alguns casos). Você não simplesmente acorda um dia e descobre o que veio fazer aqui. Você percorre a vida, quebra a cabeça (muitas vezes quebra a cara) e vai tecendo esse caminho para dar a sua contribuição, com a esperança de que você já esteja contribuindo ao menos um pouco.

Sim, a pergunta do quê eu vim fazer aqui e quando vou ser independente ainda me atordoa, a pergunta de se vou casar, se vou ter filhos etc ainda me preocupa um pouco; mas a pergunta de "quem é Raquel?" hoje eu sei que estou desvendando, construindo, lapidando. Hoje, aos trinta anos, pela primeira vez eu não passo as noites idealizando os outros, mas tão somente a mim mesma. Quem eu sou e quem eu quero ser. 

Hoje começo a enxergar que, amando tanto, a tantos, na verdade talvez meu amor por mim tenha sido o mais platônico de todos... até hoje, quando realmente estou aprendendo a me amar.

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1.095 dias

Hoje, terça, eu estava em um seminário e, conversando com uma menina que tem um projeto de renome no Rio de Janeiro, ela me falava sobre compatibilizar agenda com possíveis pretendentes. Ela dizia que tinha muitos compromissos e que, por isso, não tinha tempo a perder.

Eu então disse a ela que ela tinha que tomar a mesma decisão que eu... Falei algo assim: "agora que eu separei decidi que só quero alguém que seja da mesma dinâmica, ou seja, do mundo acadêmico", algo assim. Então ela me perguntou se eu era casada. Respondi que não, que tinha saído de um namoro de 3 anos, mas que agora me sentia livre. Ela disse: 3 anos? Quase como um casamento mesmo. E a conversa seguiu...

No sábado, eu havia sentido uma dor horrível na lombar, a ponto de quase não conseguir me movimentar e de ter que ir ao hospital no domingo praticamente me dopar com remédios pra conseguir me mexer. Era o resultado de alguns dias sentada fazendo pesquisa quantitativa e de alguns últimos meses em que não saí de casa com medo de andar na rua e de te encontrar.

Paro para contar agora e no dia 1 de dezembro farão três meses que eu te disse adeus; que fechei a porta da minha casa e da minha vida pra você. Me surpreendi agora ao fazer essa conta; achava que já eram quatro meses, mas não... três... Três meses depois de três anos. É o mesmo número, mas com significados tão diferentes.

Nesses três anos não sabia meu nome, meu endereço, meu paradeiro, meus gostos, meu nada. Vivi uma loucura acompanhada e dirigida por você. Sorri muito e chorei mais. Vivi 1.095 dias de dúvida. 1.095 dias de dúvida sobre mim. Uma dúvida regada e adubada por você. Quando estava tudo escancarado eu era duvidada e a dúvida me endividava comigo mesma. A soma das angústias se multiplicavam, mas o medo de ficar sozinha não diminuía. Quem seria eu nessa conta de subtração? Eu, que antigamente me via como ser humano que só tinha a somar, me via então tão diminuída. Me sentia tão zero à esquerda.

Foi então que há três meses eu mandei você ir embora e te deletei da minha vida online. Fim.

Fim? Não foi o fim; as reverberações estão todas aqui. Fazem três meses que não ando na rua da minha cidade com paz no coração; que eu tenho medo de encontrar alguém que veja que eu engordei; que eu tenho medo de te encontrar. Fazem três meses que eu vou te esquecendo lentamente, mas que por vezes você ressurge nos meus sonhos e me atormenta à noite. Fazem três meses que eu achei que estava boa da depressão, parei de tomar o remédio e fui para abaixo do fundo do poço novamente. Fazem três meses que uma camada imensa de gordura cobriu o meu corpo e me faz me desconhecer diante do espelho.

Fazem três meses que eu te mandei ir embora, mas não acabou; ainda não acabou porque as sequelas, muitas delas, ainda estão aqui. O aperto no coração que sinto ao ver a história de uma mulher agredida ou morta pelo companheiro; a vontade de não estar com as pessoas, pra não ter que prestar contas de tudo o que você me fez e que eu permiti nesse relacionamento. São tantas as coisas que ainda estão aqui...

Você não está, mas uma parte de você certamente ficou. Sempre fica, não é, é como dizem... Mas está vivo, latente, em carne demais ainda. Não é por outra razão que enquanto escrevo este texto tem um saco de gelo na minha lombar; a mesma lombar que foi maculada por eu não querer ir na rua com medo de esbarrar com você. São medos, inseguranças que ainda estão aqui. Elas certamente vão embora, mas estou vivendo-as, afastando-as calmamente e entendendo quem é de verdade a Raquel, sem todas essas camadas de resquícios alheios.

É um trabalho diário e paciente. Na maior parte do tempo não me lembro de você. Estou tão focada em mim que simplesmente não me lembro; só na hora de contabilizar as coisas que tenho que superar, aí você me acerta em cheio a mente. Mas é por hora, só por agora. Foram três anos, 1.095 e eles não vão embora assim, de um dia para o outro.

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Descobri que te amo demais

Segunda feira, 15 de outubro de 2018:

Meu despertador tocou às 8h da manhã, como eu havia programado. Ouvi o alarme, abri os olhos, procurei o celular para desligar o som e durante dois segundos, ainda meio grogue de sono, tentei entender o que eu tinha que fazer àquela hora. Foi então que eu lembrei que eu tinha colocado o despertador para me acordar às 8h para voltar a me acostumar a acordar cedo. 

Não pestanejei: levantei. Quando eu cheguei no banheiro me dei conta do que tinha acontecido. O despertador tocou e eu não enrolei para levantar mesmo não tendo hora para sair de casa, não tendo aula para dar, compromisso com ex orientadora, compromisso de traduzir texto, compromisso de estar em algum lugar. Não era nada disso.

Naquele momento, depois de muitos anos, eu me levantei assim que o despertador tocou apenas porque eu tinha um compromisso... comigo.

Levantei, demorei ainda umas duas horas para me arrumar (porque tomei banho, tomei café direitinho, lavei e sequei meu cabelo) e fui para a academia. Eu pensei um pouco antes de decidir se iria lavar os cabelos, porque o aspecto dele não estava bom, mas afinal eu iria suá-lo na academia.. Entretanto, não demorou muito para eu tomar a decisão de lavá-lo, já que, não importava em quanto tempo iria sujá-lo, eu queria estar bem ao sair de casa. Por medo de encontrar alguém, de me verem? Não. Depois muito tempo (se é que esse momento já existiu outrora) eu iria lavar o cabelo e secar antes de ir à academia apenas porque eu queria me olhar no espelho e me sentir bem para mim, independentemente de qualquer outro fator.

Foram pensamentos e ações que me fizeram suspirar aliviada. Não porque eu estava me reencontrando, mas porque eu estava encontrando uma nova Raquel: a que se ama.

Não foi à toa que passei o final de semana entoando "Verdade" do Zeca Pagodinho para mim mesma.

Raquel,

"Descobri que te amo demais (muito!)
Descobri em você minha paz (só eu posso me dar a paz; ninguém pode me dar ou tirá-la)
Descobri sem querer a vida (me amando descubro a seiva da vida)
Verdade (e isso é tão verdadeiro)
Pra ganhar teu amor fiz mandinga (pra conquistar esse amor fui a fundo no autoconhecimento)
Fui a ginga de um bom capoeira (pedi às Deus, à Deus, aos meus mestres, anjos da guarda...)
Dei rasteira na sua emoção (entendi que era hora de dar adeus às emoções negativas)
Com o seu coração fiz zoeira (utilizei de mecanismos para encontrar o verdadeiro amor)
Fui a beira de um rio e você (fui à beira do precipício)
Uma ceia com pãozinho e flor (e me cerquei de insumos para vencê-lo)
Uma luz para guiar sua estrada (só eu posso iluminar minha estada - e meus guias)
A entrega perfeita do amor (a conexão perfeita do que é amor)
Verdade (e isso é tão verdadeiro)
Como negar essa linda emoção (é visível que estou muito melhor)
Que tanto bem fez pro meu coração (que meu coração está cada vez mais feliz)
E a minha paixão adormecida (que estou descobrindo uma paixão que não conhecia)
Meu amor, meu amor incendeia (meu amor por mim me incendeia)
Nossa cama parece uma teia (posso sonhar)
Teu olhar uma luz que clareia (posso planejar)
Meu caminho tão qual lua cheia (posso executar)
Eu nem posso pensar te perder (não viverei nunca sem mim)
Ai de mim esse amor terminar (então se eu não me amo eu murcho)
Sem você minha felicidade (sem meu amor próprio não há alegria genuína)
Morreria de tanto penar (se eu não me dou vida eu morro)
Verdade" (e isso é tão verdadeiro)

Estou com você,

Raquel

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Retórica ilógica

Não sei se é o momento de diminuir a velocidade ou acelerar. Desde de que terminei o relacionamento destrutivo no qual eu estava, eu imergi em duas buscas: no entendimento do narcisismo e na luta contra Bolsonaro - seriam duas formas diferentes da mesma coisa? Enfim, o ato foi esse final de semana e agora me encontrei no primeiro dia de outubro, em uma segunda feira, cheia de expectativas para fazer um mês perfeito de dieta e exercícios físicos mas um acordar totalmente sem energia.

Acordei hoje com aquele sentimento característico da depressão: a vontade de não levantar da cama. Por mim teria passado o dia hoje na cama comendo e assistindo a uma série. Não o fiz porque sei que é um ciclo que se alimenta e também porque minha mãe estava trabalhando de casa, então ia "pegar mal". Acabei enrolando durante todo o dia, sem fazer nada de útil e sem fazer quase nada da minha lista de tarefas para o dia de hoje.

Hoje é um daqueles dias em que eu me deparo comigo mesma, com o fato de que meu problema não era apenas o meu ex relacionamento destrutivo, mas também - e talvez seja o por que - a depressão pela qual estou passando. Nos últimos meses eu vivi quase como se ela não existisse. Estava tão focada nos meus projetos profissionais que era quase como se eu tomasse o antidepressivo tão somente para cumprir um compromisso médico, porque parecia que a depressão fosse algo já resolvido.

Mas hoje ela deu as caras. Eu sei senti-la, porque ela suga minhas energias. Não sei se foi a pressão que coloquei em mim para fazer desse um mês incrível, cheio de metas batidas todos os dias etc. Na verdade eu sei que foi isso, mas fica aquela pergunta: por que planejar e cumprir virou um problema?

Tenho um texto longo para traduzir, pelo qual serei remunerada; tenho planos estratégicos de advocacia para colocar em prática, tenho um corpo para restaurar, uma alimentação para cuidar, um carro para revisar, supermercado para fazer, psiquiatra para ir, mas a vontade de ficar deitada na cama superou tudo hoje. Na verdade, para ser sincera, a única coisa que venceu foi a vontade de deixar meu quarto arrumado para não me sentir tão inútil e para ver se a motivação vinha, mas não veio. Ah, eu tomei banho para deixar meu cabelo desembaraçado caso me viesse um ímpeto de comparecer à academia, mas não fui.

Hoje foi um daqueles dias que eu perdi. Um daqueles dias em que você tem que olhar no espelho e entender que está sim passando por um problema, senão fica angustiante demais, mais. Hoje pode ser um dia ruim para uma pessoa "normal", mas pode ser o início da reativação de um ciclo destrutivo ao qual eu não posso ceder.

Penso em ir na rua, sei que tenho que ir para quebrar o ciclo, mas não vou. Fico em casa, troco de roupa, tenho vergonha de sair. Tenho vergonha de as pessoas me verem e assistirem meu caminhar com doze quilos a mais. Isso me afasta da academia e já sabemos como a bola de neve aumenta. Penso em ficar em casa e receber o pedreiro que tem que quebrar a parede e resolver um encanamento, mas adio. Veja bem, estou plenamente apta a recebê-lo, iniciar o processo, mas não quero. Antes tenho que falar com a secretária do prédio, mas não quero ter que encarar a celeuma administrativa que é lidar com as pessoas que habitam meu CEP. Essas coisas comezinhas hoje são grandes demais.

Não falo. O mundo continua a girar como se nada estivesse acontecendo. Converso sobre política com minha mãe, com minhas amigas no what'sapp e o mundo continua a girar - aliás, política é o que tem realmente me movido nos últimos meses, e me consumido também.

Hoje vi um meme que falava assim: "engraçado crescer, você percebe que metade dos seus amigos está tomando remédio por razões psicológicas e a outra metade precisa tomar", algo assim. Começo então a me lembrar de uma amiga minha próxima que tem problema com ansiedade. Desde que eu comecei a tomar antidepressivo, há um ano e meio, ela estava tomando ansiolítico, mas por um brevíssimo tempo e aí parou, voltou, parou, voltou. Mas o interessante de observar não é isso, mas sim como ela conduz esse discurso. Todos sabem. As crises, as histórias, os impedimentos, as faltas, as angústias etc são repertório público. Ela é de um estado do Nordeste, está aqui estudando no Rio custeada pela mãe - que perdeu um dos empregos, tem o apoio de um namorado super fofo que vai morar com ela em breve, tem amigas, enfim, tem toda uma rede de apoio que permite que ela more em outro estado mesmo sem trabalhar e ainda assim as fragilidades dela são um tópico constante. A nossa orientadora sente pena, fala que em breve vão conversar sobre possibilidades profissionais.

Aí eu paro para pensar. Pode chamar de recalque, mas vamos analisar. Eu moro na casa dos meus pais; se eu falasse que ia morar em outro estado com eles me custeando eles iriam rir da minha cara; até um mês atrás namorava um cara que me traía e me batia, que nunca me ajudou sequer para uma conversa em relação à depressão e praticamente ninguém sabia de nada disso. E ninguém continua sabendo de nada disso. Quando uma das amigas me pergunta alguma coisa, eu respondo pontualmente sobre o assunto, elas ficam assustadas, se compadecem, mas eu logo mudo o tópico. Do que adianta a sessão de debate amoroso? Quando eu mais precisei eu não pude falar porque seria julgada e agora que eu consegui me tirar daquela situação eu sei que se falasse tudo o que eu aceitei eu seria de alguma forma julgada também. Então para quê falar? Odeio vitimismos, mas também odeio quem acaba se beneficiando por falar e dramatizar publicamente todas as suas dores. Talvez esteja aí o meu recalque: eu não consigo falar.

Escrever para mim é mais fácil. É natural, fluido e também resguardado. Meus textos ficam em um blog que praticamente não tem acesso e meus pensamentos mais profundos estão sendo reorganizados na minha mente enquanto minha alma tenta se fortalecer depois de tantos anos de silenciamento. Então escrever tem sido esse reencontro e refúgio.

Em geral, ao final dos meus textos me vem um insight sobre o momento. Dessa vez não veio. Vim falar sobre depressão e a narrativa não encontrou um desfecho com significado. Não me lembro a última vez que escrevi um texto tão desconexo e sem uma continuidade de meio e fim. Talvez seja porque a depressão não faça sentido para mim ainda. Não a compreendo; não está madura; não tem racionalidade. E será que algum dia terá? Não sei, só sei que esse texto acabou por ser igual ao que ela representa para mim: uma completa falta de entendimento.

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