Coisa de início e de fim

Pra um término eu quase não chorei.
Pro nosso término eu quase não chorei.
Chorei tanto nos últimos anos que agora pouco sobrou.

"Know it sounds funny
But, I just can't stand the pain
Girl, I'm leaving you tomorrow
Seems to me girl
You know I've done all I can
You see I begged, stole and I borrowed! (yeah)
Ooh, that's why I'm easy
I'm easy like Sunday morning
That's why I'm easy
I'm easy like Sunday morning"


Faz cinco meses que nosso namoro acabou dentro de mim. Foi em março de 2018, em Saquarema, quando você me espancou, me arrastou pelo chão, me jogou contra a cama. Quando eu coloquei um fio na janela para conseguir sair do quarto e ir embora. Foi naquele dia que o último pedaço do meu coração que ainda segurava a gente se quebrou.

"I can see clearly now the rain is gone.
I can see all obstacles in my way.
Gone are the dark clouds that had me blind.
I can see clearly now the rain is gone.
I can see all obstacles in my way.
Here's the rainbow I've been praying for."

Dói relembrar o quanto eu era apaixonada por você. Ouço as músicas que eu ouvia à época em que te conheci e hoje me dói saber que eu fui apaixonada por uma pessoa que não exatamente existia. 

No nosso primeiro ano eu daria minha vida por você. Dentro de mim eu não só era a mulher mais sortuda do mundo por ser amada pela pessoa que eu era apaixonada, mas também por achar que nós éramos imbatíveis. E nós éramos. Por um ano nós fomos porque foi real dentro de mim. Nós conversávamos tanto, nós estávamos sempre juntos, nós tínhamos tantos sonhos em comum, nós nos completávamos. Você o idealizador e eu a realizadora. Era uma combinação perfeita, mas que nunca sairia do papel.

"A friend indeed, come build me up
Come shed your light, it makes me shine
You get the message, don’t you ever forget it
Let’s laugh and cry, until we die
If it wasn’t for you, I’d be alone
If it wasn’t for you, I’d be on my own
Don’t wait ‘til I do wrong
Don’t wait ‘til I put up a fight
You won my heart, without a question
Don’t wait for life
I care for you, I talk to you
In my deepest dreams, I’m fortunate
We got a friendship, no one can contest it
And not to mention, I respect you with my all
If it wasn’t for you, I’d be alone
If it wasn’t for you, I’d have to hold my own
Don’t wait ‘til I do wrong
Don’t wait ‘til I put up a fight
You won my heart, without a question
Don’t wait for life
Not a thing in the world could get between what we share
No matter where you at, no worry I’ll be there
No one’s got your back like I do
Even when the business ain’t going well, we still cool
When I shine, you shine, always on your side
All my life you’ll have what’s mine
Mark my word, we gon’ be alright
My brother, my sister we gon’ be just fine
If it wasn’t for you, I’d be alone
If it wasn’t for you, I’d be on my own
Don’t wait ‘til I do wrong
Don’t wait ‘til I put up a fight
You won my heart, without a question
Don’t wait for life"
(Don't Wait - Mapei)

Mas já havia sinais. Aliás, eles estavam todos ali. No fundo eu sei que o certo a ter sido feito era ter terminado naquele dia em Saquarema (olha a cidade aí de novo...) em que nós éramos ficantes muito assíduos - leia-se, estávamos juntos todos os dias, compartilhávamos tudo; só não tínhamos oficializado ainda - e eu vi no seu celular dezenas de conversas sobre sexo com outras mulheres. Na época eu suspeitava porque você não deixava o celular perto de mim por nada, mas naquele dia eu olhei e vi. Só que eu não enxerguei. Me ludibriando, por causa de umas leituras que eu tinha feito que diziam que o homem, no início, tem dificuldade de largar os "casinhos", eu achei que aquilo logo passaria; que era coisa de início. Em verdade foi coisa de início e de fim. 

"99% anjo, perfeito
Mas aquele 1% é vagabundo"
(Aquele 1% - Wesley Safadão)

Nota mental: sempre prestar atenção nas músicas que o cara canta com muito furor..

Mesmo assim eu segui. Era desesperadora a ideia de deixar de viver toda aquela paixão. Eu precisava. Não havia outra força dentro de mim. Quantas vezes eu andei na rua visualizando nosso casamento. Eu entrando de noiva, você me esperando enquanto tocava "All of me".

"What would I do without your smart mouth
Drawing me in, and you kicking me out
Got my head spinning, no kidding, I can’t pin you down
What’s going on in that beautiful mind?
I’m on your magical mystery ride
And I’m so dizzy, don’t know what hit me, but I’ll be alright
My head’s under water
But I’m breathing fine
You’re crazy and I’m out of my mind
‘Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I’ll give my all to you
You’re my end and my beginning
Even when I lose I’m winning
‘Cause I give you all of me
And you give me all of you"
(All of you - John Legend)

Quase tirei essa última frase deste texto, a que diz "você me dá tudo de você". Porque eu sei que eu dei tudo de mim e você me deu pouco. Mas seria inverídico com a história real se eu não dissesse que você me deu tudo de você. Porque você me deu; é que você tinha pouco mesmo. Foi o que me fez finalmente conseguir ir embora: entender que você não tinha dentro de você nada além do que tinha conseguido engajar no relacionamento. Mas era pouco pra mim e, ouso dizer, para qualquer relacionamento saudável.

Te amei muito. Te mimava, fazia tudo por você, genuinamente. Como Meghan Trainor falava, "like I'm gonna loose you".

Antes de você viajar eu te dei o ultimato: se você for para a Polônia sem estarmos namorando é o fim. Depois de seis meses juntos, eu não ficaria esperando vinte dias de viagem naturalmente como se namorada fosse sem ser. Você me pediu em namoro no aeroporto. Enquanto você viajava eu malhava pro carnaval, ao som do famigerado Biel ("tô chegando, hein... - na época não se sabia o quanto machista o cantor era) e estudava pra prova de ingresso pro mestrado. Você voltou e vivemos o nosso melhor ano juntos: 2016.

E agora, com pouca ou quase nenhuma poesia, ouvindo as músicas que eu ouvia muito no nosso início e apagando-as da minha playlist, eu acabo de acabar com mais um capítulo desse relacionamento na minha vida.

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Sou eu

Não é ele. Sou eu.

Passei os últimos meses lutando mentalmente com ele. Me afastei fisicamente, me destaquei emocionalmente, me encolhi em mim mesma para me achar. Vivendo tantos abusos, resolvi me desapegar no silêncio. 

Forjando minha independência, entretanto, criei uma armadilha para mim mesma. Acabou de passar por mim um sopro de ciência sobre isso. Sabe a história do predador Barba Azul? Em um momento catártico acabo de me perceber minha própria predadora: estou me matando.

Passei os últimos meses comendo, comendo e comendo. Muito. De cerca de um mês para cá tive espasmos de tentativa de reverter o quadro. Em um primeiro momento a luta contra essa tortura durou quinze dias, depois apenas cinco. Minha estratégia foi rastrear meus hábitos. Estava indo muito bem nos primeiros quinze dias, quando acabei me desvirtuando. Dessa última vez, em relação aos cinco dias que foram interrompidos, fui atravessada por uma bofetada no rosto. Eu não sei o que você sente quando é agredida. Eu sei o que eu já senti nas tantas vezes e principalmente o que eu senti da última vez.

Vim escrever neste momento, depois de uma epifania, mas apenas porque agora estou conseguindo ao menos respirar. Para falar a verdade não estou sentindo nada. Coloquei uma música para ver se entro no flow do sentimento, para possibilitar a escrita, mas tudo em mim está estático. Poderiam dizer que é efeito do novo antidepressivo, mas não é. Estou tomando há mais de um mês e estava bem; nada parecido com o que sinto agora, que sei que é efeito colateral de uma bofetada no rosto. Semana passada o pensamento de sentar e escrever não era uma opção: ia sair sangue nas minhas tintas, ia sair lágrima de todos os poros. Estava tão latente, vivo. Doía mas eu continuava, como um cadáver em vida. A diferença é que era/é um cadáver que comia/e muito.

A agressão foi no domingo. Eu estava dirigindo e ele olhando o celular. Falei: "amor, posso te dar um toque? Você está muito viciado no celular (por causa das apostas)". Começou a acusação por parte dele de que eu também usava muito o celular. Eu falei que se um dos amigos dele estivesse no carro ele não estaria no celular (verdade mais do que verdadeira; ele estaria conversando animadamente) e o chamei de gay. Estava dirigindo e, por ter dito isso, fui esbofeteada no rosto, enquanto eu olhava para frente - sem qualquer chance de ver ou me esquivar.

Claro que eu não deveria ter dito que ele era gay. Eu particularmente não compreendo por que isso é tão ofensivo, mas entendo que na construção macho escroto isso é um acinte. Mas violência física? Não, não justifica.

Dizem minhas leituras que os abusadores têm um ciclo a cumprir. Primeiro a violência, depois a romantização dela. O meu, não. Sofro com um abusador que se justifica em cima de mim. Me viola várias vezes. Mas sempre me rebato com a culpa de me sentir a maior violadora de mim mesma, por permitir. Mas vamos chegar lá... antes, vamos entender o que aquele tapa no rosto significou na minha trajetória de sobrevivência.

Estava eu anotando todos os meus hábitos, desde que acordava até a hora de dormir. Anotando tudo o que comia. Sentindo prazer de estar me cuidando e caminhando o trajeto que eu sabia que tinha que percorrer para me reencontrar. Estava feliz. Me isolei, me recolhi em mim mesma, mas estava encontrando muito prazer em cuidar de mim, de conseguir, dia após dia. Sabe quando você está construindo um castelinho de areia por horas? Sabe quando cada grão de areia que é sobreposto significa um horizonte cada vez mais claro do castelo? Imagina fazer isso dias e dias a fio. Ter como quase o único objetivo de vida ir à praia e sobrepor os grãos. Ao final do dia, anotar todos os grãos sobrepostos para poder perceber seus avanços. Espero que você não saiba o que se sente quando depois de dias e dias de dedicação, o mar vem e arrebata tudo, de uma só vez. Foi assim que aconteceu comigo da última vez. O problema é que a força do mar é irracional, involuntária e ontológica, mas a daquele braço, não.

Eu tenho focado minhas lentes, minhas práticas, toda a minha vida em me erguer, em caminhar na minha solitude, em me entender enquanto ser humano que se basta. Caminhei alguns dias na certeza de que meus hábitos saudáveis de sono, alimentação e atividades seriam a chave para a porta do meu reencontro ainda mais profundo comigo mesma. Mas fiquei ciente da potência de um soco, mais uma vez. Dessa vez eu sentia como se estivesse voltando a correr e de repente algo me arrebatasse, eu caísse no chão e lá ficasse. Sabe como quando aconteceu com o Vanderlei Silva, quando um estranho o empurrou? A diferença é que ele no mesmo minuto levantou e voltou a correr. Devo dizer, entretanto, a "pernada" que vem de dentro de um relacionamento imobiliza.

Passei a última semana obcecada em terminar. Por que não terminei o relacionamento na hora? Sinceramente? Medo. Eu sei qual é a dinâmica de quando eu tento terminar pessoalmente. Ele não me deixa ir embora, é toda uma cena que depois de uma bofetada eu não poderia pensar em passar. Então eu levei a bofetada no rosto e imediatamente me calei. Estava chegando no Rio, peguei o retorno e voltei para Niterói. Deixei-o em casa, me neguei a dar beijo, fui para a minha casa, me deitei na minha cama e quis me matar. Eu já estava morta.

Não estaria exagerando nem um segundo em dizer que aquele soco me matou. Não por completo, porque graças a Deus ainda respiro, mas matou mais um pouco de mim, certamente. Consegui chegar no meu quarto para começar a chorar. Em silêncio, em retidão. Não é o tipo de coisa que você chega em casa e desabafa com sua mãe se você ainda não está com cem por cento de certeza de que vai aguentar o término. Então eu me recolhi.

Passei a semana inteira quieta. Mal falei com ele. Mas falaram comigo. A vida falou comigo três vezes. Na terça-feira, quando eu fui para Seropédica e gravei pra minha rede social a fala das palestrantes, tão afinadas com meus valores  e meu propósito e distantes do que acontecia na minha vida real. Minha mãe, que assistiu à Live que eu fiz da palestra e não sabe das agressões físicas, depois comentou comigo que deve ser muito difícil o que estou passando, já que penso uma coisa e vivo outra no meu relacionamento com ele. Mal sabe ela...

Na quinta a vida falou comigo quando eu estava me encaminhando para a Universidade para dar uma aula sobre teorias feministas. Imagine como eu me sinto uma farsa! Eu digo para minhas alunas que elas não devem esperar o outro, que elas devem se defender, determinar o que está de acordo com os valores delas e pautarem suas relações a partir disso, mas vivo uma relação de ponta cabeça em relação a essas diretrizes.

Ainda na quinta, uma conhecida veio falar comigo no facebook sobre como ela poderia saber mais sobre essas pautas feministas, já que tinha sido agredida pelo namorado, perdoou, mas ele retornou a agredi-la e ela terminou o namoro que dali a duas semanas viraria casamento. Conversei e orientei-na. Expliquei o que ela deveria fazer, o quanto tudo que ela estava sentindo era compreensível e que ele certamente faria novamente se ela aceitasse. Ela terminou o que em duas semanas seria um casamento e eu não consigo terminar um relacionamento que há três anos é dor.

Tenho tanto medo de ficar sozinha que como toda a minha dor, minha decepção com ele e principalmente comigo, permaneço. Tenho tido prazer apenas em planejar e executar algumas ideias profissionais e em comer. Quando olho para a minha vida pessoal só sinto desgosto. Tenho 30 anos, sou feminista e estou em um relacionamento abusivo com um agressor que sequer reconhece e se desculpa. Eu nem sinto que fracassei, porque eu tentei de tudo, eu fiz de tudo. Eu sinto que estou fracassando, em não me libertar. Com medo de sofrer, eu sofro. Com medo de doer, dói. Com medo de ficar sozinha, estou cada vez mais.

Mas para falar a verdade não sinto quase nada neste momento, a não ser apreensão por ser eu, como diz Jorge Vercilo, prisioneiro meu.

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Castelo no chão

Calmaria. Finalmente meu barco seguia por mares romanticamente calmos. Como vocês estão? Bem! Na paz, graças a Deus! Isso me bastava, me aliviava, me fazia focar em mim, e não em nós. Acho que desde que estivemos juntos pela primeira vez eu não sentia essa paz. Será o início de um relacionamento saudável, mais maduro? - eu pensava, agradecendo.

Segunda feira, 5 de março de 2018. Tínhamos passado o sábado e o domingo em outra cidade e precisávamos voltar na segunda porque na terça eu teria que estar em casa para servir de babá do bombeiro hidráulico que realizava a 5a edição do vazamento do meu banheiro.

Estava com muita dor no estômago desde o domingo à noite. Uma dor que eu só tinha até então experimentado por segundos, naquele momento estava durando horas. Dormi e na segunda acordei ainda com dor. Ele me acordou para sairmos para almoçar. Quando eu finalmente levantei ele achou melhor comermos fora quando já estivéssemos voltando de viagem. Concordei. Arrumei parte da casa e tomei meu banho. Na verdade, eu acabei arrumando tudo, mas deixei três pratos na pia e a panela de cachorro-quente que eu tinha feito pra ele no domingo, pois ele não concebia a ideia de sair de tanta ressaca.

A verdade cronológica dos fatos é que quando me levantei para tomar banho ele me disse: tudo bem, só lava a panela de cachorro-quente, por favor. Oi? Eu arrumei tudo, só deixei isso pra você fazer; não vou lavar. Discussão. Pausa. Vou pro banho enervada, com a panela de cachorro-quente ainda suja. Tomo banho revirando mentalmente todos os meus argumentos para não lavar a bendita panela. Sim, era claramente uma questão de posicionamento.

Saí do banho, coloquei meu macaquinho (um azul que eu comprei no ano passado para ir ao aniversário dele. Um dos meus preferidos!) e encontrei ele deitado na sala sem ter movido um pelo da sobrancelha. Estava muito calor, eu estava com fome, com dor, eu só queria ir embora. E ele lá deitado, esperando o espírito santo - leia-se, eu desistir e fazer - lavar a pequena louça de três pratos e uma panela de cachorro-quente. Discussão.

A partir daí não me recordo com detalhes. Tenho cenas em minha mente: estamos discutindo muito, eu aponto o dedo falando alguma coisa, ele manda eu abaixar e mete a mão em mim. Meti o pé nele e ele partiu com tudo pra cima de mim. Com tudo, mesmo.

A cena pra mim não era exatamente uma novidade. Aqui e acolá já tinham acontecido coisas do gênero, mas essa foi a primeira vez que eu achei que fosse morrer. Recebi tapa na cara, fui jogada contra a cama, fui arrastada pelo chão, fui sufocada com a mão na minha boca para que eu não gritasse, minha cabeça foi jogada contra o chão. Eu gritava. Gritava um grito de horror, de desespero, o que supostamente piorava tudo pois ele dizia que eu estava gritando para os vizinhos ouvirem. Oi? Vizinhos? Se eu aprendi alguma coisa nesse dia é que os vizinhos não se importam. Ou não se importam tanto a ponto de fazerem alguma coisa. Porque eu gritei, muito. Quando ele me arrastou pelo chão, ele chegou a dizer: você vai fazer mesmo com que eu seja preso. Vejam bem: você!

Nariz sangrando, vestido preferido rasgado, dois galos na parte de trás da cabeça e um mais leve na frente, me tranquei no quarto sozinha. Comecei a planejar minha saída da casa, porque logo que começamos a brigar ele trancou tudo para que eu não fosse embora. Minhas malas já estavam prontas, meu carro estava lá embaixo, teria sido muito fácil ir embora e ele sabia disso, então ele tornou impossível. Fui até a sala pedir chorando pra ele abrir a porta, que eu só queria ir embora. Ele disse que não e até ensaiou dizer que íamos dormir lá. Eu surtei. Disse chorando que não, que não ia dormir lá de jeito nenhum. Fui para o quarto, me tranquei novamente e comecei a pensar em como descer para o primeiro andar. Vi um rolo de fio preto no canto do quarto e o prendi na dobradiça da porta. Joguei o rolo para baixo e vi que daria pra eu chegar no térreo. Mas e minha mala? Como eu ia jogar minha mala sem quebrar nenhuma telha nem nada que estava dentro da mala, sem chamar atenção? Fiquei um tempo pensando sobre isso e ponderando se ele não ia mudar de ideia, abrir a porta para irmos embora (eu sabia que não iria embora sozinha porque ele não ia ficar lá sozinho), mas o que me fez questionar muito se aquela ideia de me arriscar tanto era a decisão correta foi tudo o que aconteceu no revéillon; toda a minha falta de cuidado para comigo mesma, que poderia ter consequências tão mais graves. Fiquei com medo.

Ele bateu na porta. Tentei tirar o fio para que ele não visse e ele bateu na porta novamente falando que se eu queria ir embora que abrisse a porta logo. Abri. Ele me sentou na cama e fez alguma gracinha. Brincou com o fato de eu ter dito que ele ia me matar. Eu só chorava. Em um dado momento olhei nos olhos dele e fiz um olhar de quem estava achando engraçada a brincadeirinha dele. Eu só queria ir embora. Fomos.

Na volta, eu dirigi todo o percurso com muito sono e em completo silêncio. Ele também. Quando eu o deixei na casa dele, pediu que eu avisasse quando chegasse na minha. Não avisei. Me mandou uma mensagem tarde da madrugada falando qualquer coisa que respondi de forma seca no dia seguinte. Tenho seguido assim. Minhas respostas variam entre sim e ok. Hoje ele me chamou para jantar em uma pizzaria que gostamos muito e que estava com um preço bom e eu disse que não podia porque tinha prazo para entregar. Mentira. Eu só não quero. A pizza até queria. Mas não quero sentar à mesa com ele como se nada tivesse acontecido. Aconteceu. E eu ainda não sei como lidar.

De segunda para terça chorei muito de noite. Ontem chorei muito durante o dia, não consegui fazer nada. Pensei o dia todo em me matar. Minha vida perdeu o significado pra mim, não por causa de um homem, mas porque eu continuo passando por esse tipo de situação, que ainda por cima tem piorado de forma colossal. Ontem eu tenho certeza que eu não fiz nada com minha própria vida única e exclusivamente porque quando aconteceu o que ocorreu no reveillon, minha mãe quase parou de respirar quando achou que eu tivesse sumido. Ela passou dias e dias e quando paramos para conversar ela ainda fala o quanto o mundo dela parou quando ela, durante segundos, achou que eu tivesse sumido. É só por isso que eu não faço nada. Só por ela. Porque ela não merece ter vivido batalhando, trabalhando como fez para me dar as melhores oportunidades e eu simplesmente ser egoísta e me matar. Só por isso. É desesperador ver quanto um evento pode te levar dez casas atrás no tratamento da depressão. Você está lá lutando diariamente, fortalecendo-se, e aí vem um menino mimado e desmorona tudo. Mas o pior disso tudo é eu deixar isso acontecer.

Ele me bater me magoa, mas eu não fazer nada me destrói.

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Tormenta

A urgência em amar.
Minha vida mudou quando te vi a primeira vez.
Botas, jaqueta amarrada na cintura, um andar descolado, um papo inesgotável e um beijo perfeito. Foi um dos melhores beijos que você já me deu.

Paixão.
Felicidade.
Vibração.
Sexo.
Espera.
Paciência.
Ego.
Impaciência.
Namoro.

Hoje eu me lembro dos primeiros dias e sei que eu não tinha ideia de quem era você. Eu me apaixonei por uma sedutora criação perfeitamente construída.

Logo percebi sua carência; sua necessidade. Me construí também. Forjei sua necessidade. Era um casamento perfeito entre quem precisava e quem precisava ser precisada. Você e eu.

Celular escondido, mensagens de outras, propostas de sexo, briga, reconciliação instantânea, deturpação de valores. Hoje eu sei que eu deveria ter ido embora naquela noite em que vi suas mensagens para outras enquanto você dizia ser apaixonado por mim. Ali ocorreu a ruptura de mim por mim mesma: eu aceitei. Eu quis acreditar em uma verdade escancaradamente mentirosa. Eu escolhi. Era tão bom, tão inteiro para mim que eu esqueci de avaliar, racionalmente, o que tudo aquilo significava. A ponderação de valores essenciais é um erro.

Eu estava emocionalmente destruída. Perdi minha percepção de mim como mulher e como pessoa e te encontrei quando eu não sabia onde eu mesma estava. Melhor equação para o desastre. Acreditei na persona que hoje eu vejo as pessoas acreditarem e mergulhei em uma história com personagem principal sendo eu a codjuvante. Nada disso foi planejado. Depois de cerca de sete meses de clausura, achei que tinha tirado a sorte de encontrar minha alma gêmea no segundo beijo que dei depois do término com meu namorado anterior. Como eu poderia desistir do amor da minha vida por causa de algumas mensagens trocados com mulheres à toa? Certamente aquilo era o frisson do homem solteiro que estava com dificuldade de aceitar uma vida a dois. Paciência. Intimação. Namoro.

Nosso primeiro ano é uma incógnita pra mim. Passei boa parte do ano de 2016 achando que eu tinha encontrado a pessoa certa; que eu estava vivendo o amor da minha vida; que nós seríamos para sempre; que poderíamos vencer tudo e todos; só nós me bastava. Alguma insegurança pelo seu histórico, mas, tirando o fato de que eu não podia chegar perto do seu celular, tudo transcorria mais ou menos bem. Hoje eu não sei dizer o que aconteceu em 2016. Eu sei o que eu vivi, o que eu senti, o que eu desejei e fiz, mas não sei quanto a você. Não sei por onde você estava vivendo enquanto eu fazia planos para nós. Certamente eu estava bastante insegura, mas não tinha dúvidas sobre a gente. Os outros me pareciam uma ameaça, mas não o que tínhamos. Para mim éramos invencíveis.

Parece que eu te conheço há uns 10 anos de tantas temporadas que vivemos nesses dois anos e meio de relação. 2017 chegou com uma névoa. Casamento da amiga da minha mãe você não me acompanhou. Uma depressão convenientemente inventada. Finais de semana longe. Até aquele dia em que eu vi um vídeo seu na night enquanto eu passava o sábado à noite sozinha em casa porque você disse que estava depressivo demais para me ver. O cristal mais uma vez se quebrou. Na verdade, ali a rachadura realmente foi feita, porque antes podíamos nos defender dizendo que não éramos namorados, mas não naquele momento. Naquela ocasião éramos namorados, muito namorados, comprometidos com um projeto de sonho. Sensação de morte foi o que senti naquela noite. Meu mundo foi abalado em proporções sísmicas. Minha dor era tanta e minha desordem mental era tão grande que dias depois perdoei.

Meses estranho. Mais uma, mais outra mentira. Término. Perdão. Novo ciclo. A cada episódio dessa epopéia triste eu me estilhaçava internamente. Sinceramente, olhando para pouco tempo atrás, eu entendo porque há cinco meses atrás fui diagnosticada com depressão. A culpa não é sua, não é minha; é da nossa combinação. Dos seus desarranjos e da minha fraqueza em não impor limites, em não ir definitivamente embora.

Claro que eu estava com depressão. Não havia um final de semana sem choro. Não havia um dia de paz. Não havia nada e eu ainda ainda estava ali. O desespero progressivamente me consumia. Quando eu achava que era o fim, que eu não tinha mais forças para continuar, eu ressurgia como uma fênix pouco orgulhosa. Insisti. Até que li todas as conversas do seu celular.

Acabou.

Naquele momento eu já estava sendo medicada. No início. Mas quando você está abaixo do poço qualquer substância quimicamente mais preparada do que o seu cérebro solo faz efeito. Me desesperei de forma estática. Robotizada, sem conseguir expressar, mas apenas sentindo. A primeira semana foi como morrer em vida. Era assim que eu me sentia. Ia almoçar todos os dias em um restaurante perto da minha casa, ouvia áudios de um negócio novo no qual eu estava me aventurando, mas meu cérebro quimicamente me segurava diante do precipício. Não foi a traição. Não foram as traições. Foi a exposição, a indiferança, o escárnio. Tudo meticulosamente arquitetado para criar uma vida comigo e outra em paralelo. Rivotril de Calcutá.

Na segunda semana eu sucumbi. Aceitei conversar e no final de semana voltei. Para onde? Estava certa de que não para onde estávamos. Rígida. Austera. Firme. Voltei com o projeto de ser quem eu verdadeiramente sou e não aceitar nada menos que isso significa. Tudo aparentemente bem. As aparências são engraçadas porque significam uma tranquilidade que por óbvio não revela nosso íntimo, nossa verdade.

Um whatsapp web. Uma mensagem. Duas. Três. Respondi. Fui você. Dei um fim. Fui atrás de saber, me coloquei diante de mim mesma, busquei responder de forma firme, mas ainda fraca na escolha de permanecer. Mais uma? Mesmo depois de tudo isso? Depois de termos voltado? Agora era para ser para sempre. Era...

Discussões. Agressões. Digressões solitárias e ineficazes. Um profundo ressentimento, agora não comigo mais - porque sei que estou doente e, por isso, menos forte - mas com a articulação da nossa derrocada que você continuamente promoveu. Sem saber, acredito. Sei que, no fundo, você se vê comigo. Mas por quê, eu me pergunto. Não entendo essa vontade de permanecer que agride emocional, física e sentimentalmente. Não sou o exemplo de perfeição, mas tenho certeza que me esforço para dar o meu melhor. Por vezes erro, mas é como já ouvi: eu me esforço para dar certo. Adianta?

Pode ser que hoje você tenha se alinhado. Entendido o que eu significo na sua vida. Mas como fica isso tudo dentro de mim? Como eu faço um bem bolado dessa bagunça toda? Eu sei que sou forte. Eu sou. Mesmo tomando antidepressivo e ansiolítico - este não mais - eu hoje sei que eu sou tão forte que eu não sucumbi durante esse ano. Sem motivos para continuar eu permaneci. Não com você, mas comigo. Não desisti de mim embora tudo à minha volta me dissesse que minha vida era um disperdício sem reforma.

Agora que encontramos alguma calma eu me ressinto. Eu olho para a tranquilidade do mar e vejo os destroços, a sujeira que ficou e a insegurança de não saber se haverá outra tormenta. Não fica mais fácil; fica mais triste.

Eu só queria que fosse mais fácil. Eu preciso que seja.


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O não sentimento da ausência

Sabe aquele pensamento de que quando alguém ou alguma coisa te incomoda é porque algo em você, que você não gosta, foi tocado? É assim que me sinto em relação a alguns casais nossos de amigos.

Domingo estávamos no aniversário de um amigo seu que desde que eu conheço é parte de um casal que por vezes me incomoda. Me incomoda porque eles começaram a namorar antes; porque ele demonstrava estar muito apaixonado; porque ele fazia surpresas meticulosamente pensadas no aniversário dela; porque eles viajavam para cidades próximas apenas os dois; porque ele a chamou para morar com ele custeando a vida a dois; porque ele sempre postou e ainda posta fotos com legendas apaixonadas; porque depois de quase dois anos eles ainda embalam esse amor da mesma forma - ou pelo menos com bastante vigor.

Nenhum relacionamento é perfeito, claro. Sabemos de alguns problemas que ali existem, mas considero que o conjunto é harmônico. E é essa harmonia do conjunto que me incomoda. Tudo o que nos falta. Nossa relação é morna. A maior emoção em geral aparece nas brigas. Rompantes. Calorosos arroubos, arrombos, pedidos de socorro.

Aquele outro casal de amigos seus também me incomoda. Inclusive, muito por eles que eu acabei fraquejando no segundo final de semana que estava decidida a nunca mais olhar para a sua cara. A falta que ele sente dela. A vontade dele de estar com ela. O carinho dele por ela. O tratamento.. Tudo me afronta. E me afronta porque me força a olhar no espelho e ver que eu não tenho nada disso com você. Aliás, na verdade me escancara, mais uma vez, o seu descaso - e o meu também - por mim.

Daqui a uma semana e meia eu vou viajar. Em todas as conversas você só "brinca", diz que vai sair, vai fazer e acontecer. Uma vez, duas, talvez, vá lá, dá pra rir. Mas você nunca sabe medir a linha tênue entre a brincadeira e o deboche. Talvez um dia você tenha tido legitimidade para brincar com esse tipo de coisa, mas hoje? Hoje você, eu, todo mundo sabe que isso tudo passou de uma mera brincadeira, uma simples implicância.

Uma grande parte de mim está tomada pelo vazio de saber que não vou fazer falta. Pelo contrário, sinto que minha ausência será festejada. Porém, ao mesmo tempo sinto que estou perdendo tempo em pensar e sentir isso, porque acho que eu deveria estar em paz com essa realidade se eu continuo escolhendo ficar com você "apesar de" toda a falta que esse relacionamento me perpetua. Mas a gente manda em sentimento? A gente pode até tentar coordená-los, mas todos eles ficam ali alojados mesmo que escamoteados. Não dá pra tirar, dá apenas para acomodá-los em lugares menos penosos. É isso que eu tento fazer todos os dias, ao pensar e sentir toda essa indiferença.

Eu achei que depois de tudo o que aconteceu, de você sentir minha falta, as coisas seriam diferentes. Não são. Algumas formalidades extremamente elementares foram restabelecidas, mas a essência não mudou. E não vai mudar, porque é da minha natureza querer o romance e é da sua renegá-lo a quem te valoriza.

É como se eu estivesse há dois anos apenas ficando com você. Sabe aquela fase em que as pessoas propositadamente escondem sentimentos, camuflam emoções para não se comprometerem? Todo nosso relacionamento tem sido assim. Por isso que eu qualifico-o como morno, porque qualquer coisa que não seja entrega me parece medíocre. Eu sinto muito.

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Ir

Ter tudo e nada ao mesmo tempo. Estar mas não pertencer. Em tudo estou mas em nada me encontro.

Olho para o lado e não reconheço minha mãe, meu pai, meu namorado, meus amigos. Quem somos nós? Já fomos tanto e agora resta um incômodo vazio da presença física. Estamos todos em salas individualmente compartimentadas, juntos em momentos isolados mas dispersos na alma.

Assisto a um vídeo que me toca e chamo minha mãe ao meu quarto. Sabia que haveria má vontade mas que viria. Ela vem com a permanente, velada e compreensiva ânsia de que eu compartilhe um insight de vida, uma evolução profissional, o encontro do meu caminho. Naquele momento, entretanto, eu só tenho a oferecer um lugar ao meu lado para assistir a um vídeo do meu interesse. É pouco.

Em um acaso descuidadosamente articulado pela vida, em um dos minutos iniciais do vídeo há uma fala sobre pais que erroneamente buscam determinar o caminho profissional dos seus filhos. Eu nem lembrava daquela frase do astrólogo, que discorreu abundantemente sobre sua infância em Moçambique, seus anos em um orfanato em Portugal, outros em uma escola anglo-holandesa e que, assim, contava entusiasmadamente sobre seus trinta e quatro anos de peregrinação profissional na astrologia. Para mim, o vídeo era sobre astrologia. Para minha mãe, era sobre a tirania materna.

Olhei para ela e percebi que olhava para os lados, desconfortável, impaciente. Falei que poderia sair do quarto, se quisesse. Ela me disse que eu podia ser o que eu quisesse, em um começo de discurso sobre uma liberdade consentida pelo desespero. Na mesma hora eu me insurgi contra o assunto e encerrei o vídeo. Eu queria compartilhar um interesse, mas minha estagnação profissional é uma esponja que acaba por absorver qualquer interação genuína sobre outro assunto.

Ela sai do quarto e eu fecho a porta querendo fechar minha vida. Minha vida... Se eu pudesse eu teria feito as malas e ido embora naquele momento. Por tão pouco, alguns me questionariam. Por tanto, eu diria.

Naquele momento percebi que eu iria embora, sozinha, e por mais amor que exista dentro de mim, não haveria razão para voltar.

Aqui sou incômodo, sou atraso, sou o sonho irrealizado de pais compromissados com a segurança. Não julgo eles. Não me julgo. Mas claramente não pertenço.

Quando penso em ir me dói a ausência do tempo compartilhado. Todos nós vamos morrer, logo me lembro, então a angústia de perder o tempo que ainda temos me toma. Mas como perder algo que não existe? Tempo? Que tempo temos separados por paredes de concreto que isolam cômodos, televisões e mundos tão diferentes? Nossas almas estão unidas por um endereço e separadas pelo silêncio.

Posso ir e não retornar livremente, pois sei que não teria ao que retornar. Não agora. Não assim. Habito um quarto que não deveria ser meu. Há um cronômetro psicológico que tiquetaqueia minha partida. Enquanto permaneço fracasso.

Essa distância emocional paternal é um lugar comum para mim, mas estranha em relação à minha mãe. Não nos reconheço e por isso não sei mais quem eu sou. Como posso querer romper meu vínculo mais forte com a vida para me tornar eu mesma? É um paradoxo incontrolável que pulsa os meus dias, que motiva a prescrição antidepressiva e que me faz percorrer os mais diversos caminhos para achar, de uma só vez, todas as respostas. Para que eu possa ser eu, minha mãe minha mãe, meu pai meu pai, todos nós habitando espaços fisicamente separados para que possamos finalmente nos encontrar.

Há um outro fator é curioso na ideia de ir embora. Penso em ir embora como se nada deixasse para trás, embora eu tenha formalmente um namorado. Aqui, nesta cidade, neste bairro, a poucos quarteirões. Poucas quadras, mas quilômetros de distância. Também estamos mas não somos.

Normalmente pensaria que ir embora seria motivo de grande dor para os que ficam. Neste momento, entretanto, não é o que me afigura. Não sinto que estaria deixando nada para trás porque não me sinto parte de ninguém. Olho para ele, sei tudo o que já vivemos, tudo o que hoje vivemos, mas sinto que não tenho o que abandonar. Ir embora... de onde? Não estou em lugar algum.

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O que dói

Foi um grito.

Sangrava há seis meses. Mas eu não via. Eu apenas sentia.

Você cortou meu cordão umbilical com meus mais ingênuos sonhos. Arrancou de mim a minha criança, a minha fé.

Hoje sou capaz de enxergar o que passei vinte e nove anos da minha vida ignorando e que eu gostaria poder continuar desconhecendo: a dificuldade humana de viver um amor.

Viver. Sentir. Ser.

Um dia eu te amei com todo o meu coração. Com tudo o que eu tinha e também não tinha para dar a alguém. Eu forjaria todo o necessário para viver ao seu lado, com você.

Eu fiz muito por você, pela sua família, pelo seu trabalho, mas nada disso verdadeiramente me importa. São passagens que só me mostram o quanto eu, taurina sagitariana, fui capaz de dar por amar.

Eu te idolatrava. Andar com você, ser amada por você, ser validada por você era uma força motriz que me movimentou por um profundo caos durante dois anos.

Eu largaria a cidade. Eu viveria uma vida simples. Eu abriria uma agência lotérica. Eu ouviria suas longas histórias todas as noites. Eu dormiria em um colchão velho... só pra estar ao seu lado. Eu trabalharia onde nunca quis para ser independente financeiramente. Pra ir embora com você.

Hoje eu sei o que é a paixão. Ela te impulsiona e te afoga com a mesma força. "Deus, muito obrigada por me dar a oportunidade de conhecer, sentir e viver essa paixão." "Deus, eu gostaria de nunca tê-lo conhecido."

Parecem dois lados da mesma moeda, mas não são. São distâncias que me modificaram para sempre.

Hoje eu me olho no espelho e tento esconder de mim uma parte de mim mesma. Olho meio de lado, de canto, como que em um relance, para não precisar enxergar o que está tão escancarado na minha mente.

Voltar para muitos pode significar perdão. Voltar, para mim, foi ignorar e colocar para debaixo do tapete da minha alma algo que eu sei que eu não sou capaz de ultrapassar. Eu sei que, de alguma forma, eu sempre vou estar ligada àquele momento. Não a todos os finais de semana nos quais você sistematicamente me enganou e me traiu. Mas a quando eu me atirei à verdade.

Eu sei que fui eu. Não foi mais ninguém. Não foi um anjo. Não foi Deus. Não foi um amigo. Não foi minha família. E também não foi você. Fui eu que decidi me confrontar com a verdade. Não sei se por coragem ou por não ter mais forças pra sustentar a dor de viver uma dor sem saber o porquê.

O que nós vivemos hoje eu não sei se é uma segunda chance. Em uma segunda chance ambos estão emocionalmente dispostos a se entregar e eu não estou disponível. Acabo por me colocar na berlinda novamente ao me arriscar a um reiterado e aprofundado sofrimento, mas o duro é perceber que faço isso sem acreditar em um destino mais honesto. Sem acreditar nem em você nem em nós.

E eu sei que isso é o mais me dói. Não é enxergar quem você é, mas sim quem provavelmente nós nunca seremos.

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