1.095 dias

Hoje, terça, eu estava em um seminário e, conversando com uma menina que tem um projeto de renome no Rio de Janeiro, ela me falava sobre compatibilizar agenda com possíveis pretendentes. Ela dizia que tinha muitos compromissos e que, por isso, não tinha tempo a perder.

Eu então disse a ela que ela tinha que tomar a mesma decisão que eu... Falei algo assim: "agora que eu separei decidi que só quero alguém que seja da mesma dinâmica, ou seja, do mundo acadêmico", algo assim. Então ela me perguntou se eu era casada. Respondi que não, que tinha saído de um namoro de 3 anos, mas que agora me sentia livre. Ela disse: 3 anos? Quase como um casamento mesmo. E a conversa seguiu...

No sábado, eu havia sentido uma dor horrível na lombar, a ponto de quase não conseguir me movimentar e de ter que ir ao hospital no domingo praticamente me dopar com remédios pra conseguir me mexer. Era o resultado de alguns dias sentada fazendo pesquisa quantitativa e de alguns últimos meses em que não saí de casa com medo de andar na rua e de te encontrar.

Paro para contar agora e no dia 1 de dezembro farão três meses que eu te disse adeus; que fechei a porta da minha casa e da minha vida pra você. Me surpreendi agora ao fazer essa conta; achava que já eram quatro meses, mas não... três... Três meses depois de três anos. É o mesmo número, mas com significados tão diferentes.

Nesses três anos não sabia meu nome, meu endereço, meu paradeiro, meus gostos, meu nada. Vivi uma loucura acompanhada e dirigida por você. Sorri muito e chorei mais. Vivi 1.095 dias de dúvida. 1.095 dias de dúvida sobre mim. Uma dúvida regada e adubada por você. Quando estava tudo escancarado eu era duvidada e a dúvida me endividava comigo mesma. A soma das angústias se multiplicavam, mas o medo de ficar sozinha não diminuía. Quem seria eu nessa conta de subtração? Eu, que antigamente me via como ser humano que só tinha a somar, me via então tão diminuída. Me sentia tão zero à esquerda.

Foi então que há três meses eu mandei você ir embora e te deletei da minha vida online. Fim.

Fim? Não foi o fim; as reverberações estão todas aqui. Fazem três meses que não ando na rua da minha cidade com paz no coração; que eu tenho medo de encontrar alguém que veja que eu engordei; que eu tenho medo de te encontrar. Fazem três meses que eu vou te esquecendo lentamente, mas que por vezes você ressurge nos meus sonhos e me atormenta à noite. Fazem três meses que eu achei que estava boa da depressão, parei de tomar o remédio e fui para abaixo do fundo do poço novamente. Fazem três meses que uma camada imensa de gordura cobriu o meu corpo e me faz me desconhecer diante do espelho.

Fazem três meses que eu te mandei ir embora, mas não acabou; ainda não acabou porque as sequelas, muitas delas, ainda estão aqui. O aperto no coração que sinto ao ver a história de uma mulher agredida ou morta pelo companheiro; a vontade de não estar com as pessoas, pra não ter que prestar contas de tudo o que você me fez e que eu permiti nesse relacionamento. São tantas as coisas que ainda estão aqui...

Você não está, mas uma parte de você certamente ficou. Sempre fica, não é, é como dizem... Mas está vivo, latente, em carne demais ainda. Não é por outra razão que enquanto escrevo este texto tem um saco de gelo na minha lombar; a mesma lombar que foi maculada por eu não querer ir na rua com medo de esbarrar com você. São medos, inseguranças que ainda estão aqui. Elas certamente vão embora, mas estou vivendo-as, afastando-as calmamente e entendendo quem é de verdade a Raquel, sem todas essas camadas de resquícios alheios.

É um trabalho diário e paciente. Na maior parte do tempo não me lembro de você. Estou tão focada em mim que simplesmente não me lembro; só na hora de contabilizar as coisas que tenho que superar, aí você me acerta em cheio a mente. Mas é por hora, só por agora. Foram três anos, 1.095 e eles não vão embora assim, de um dia para o outro.

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Descobri que te amo demais

Segunda feira, 15 de outubro de 2018:

Meu despertador tocou às 8h da manhã, como eu havia programado. Ouvi o alarme, abri os olhos, procurei o celular para desligar o som e durante dois segundos, ainda meio grogue de sono, tentei entender o que eu tinha que fazer àquela hora. Foi então que eu lembrei que eu tinha colocado o despertador para me acordar às 8h para voltar a me acostumar a acordar cedo. 

Não pestanejei: levantei. Quando eu cheguei no banheiro me dei conta do que tinha acontecido. O despertador tocou e eu não enrolei para levantar mesmo não tendo hora para sair de casa, não tendo aula para dar, compromisso com ex orientadora, compromisso de traduzir texto, compromisso de estar em algum lugar. Não era nada disso.

Naquele momento, depois de muitos anos, eu me levantei assim que o despertador tocou apenas porque eu tinha um compromisso... comigo.

Levantei, demorei ainda umas duas horas para me arrumar (porque tomei banho, tomei café direitinho, lavei e sequei meu cabelo) e fui para a academia. Eu pensei um pouco antes de decidir se iria lavar os cabelos, porque o aspecto dele não estava bom, mas afinal eu iria suá-lo na academia.. Entretanto, não demorou muito para eu tomar a decisão de lavá-lo, já que, não importava em quanto tempo iria sujá-lo, eu queria estar bem ao sair de casa. Por medo de encontrar alguém, de me verem? Não. Depois muito tempo (se é que esse momento já existiu outrora) eu iria lavar o cabelo e secar antes de ir à academia apenas porque eu queria me olhar no espelho e me sentir bem para mim, independentemente de qualquer outro fator.

Foram pensamentos e ações que me fizeram suspirar aliviada. Não porque eu estava me reencontrando, mas porque eu estava encontrando uma nova Raquel: a que se ama.

Não foi à toa que passei o final de semana entoando "Verdade" do Zeca Pagodinho para mim mesma.

Raquel,

"Descobri que te amo demais (muito!)
Descobri em você minha paz (só eu posso me dar a paz; ninguém pode me dar ou tirá-la)
Descobri sem querer a vida (me amando descubro a seiva da vida)
Verdade (e isso é tão verdadeiro)
Pra ganhar teu amor fiz mandinga (pra conquistar esse amor fui a fundo no autoconhecimento)
Fui a ginga de um bom capoeira (pedi às Deus, à Deus, aos meus mestres, anjos da guarda...)
Dei rasteira na sua emoção (entendi que era hora de dar adeus às emoções negativas)
Com o seu coração fiz zoeira (utilizei de mecanismos para encontrar o verdadeiro amor)
Fui a beira de um rio e você (fui à beira do precipício)
Uma ceia com pãozinho e flor (e me cerquei de insumos para vencê-lo)
Uma luz para guiar sua estrada (só eu posso iluminar minha estada - e meus guias)
A entrega perfeita do amor (a conexão perfeita do que é amor)
Verdade (e isso é tão verdadeiro)
Como negar essa linda emoção (é visível que estou muito melhor)
Que tanto bem fez pro meu coração (que meu coração está cada vez mais feliz)
E a minha paixão adormecida (que estou descobrindo uma paixão que não conhecia)
Meu amor, meu amor incendeia (meu amor por mim me incendeia)
Nossa cama parece uma teia (posso sonhar)
Teu olhar uma luz que clareia (posso planejar)
Meu caminho tão qual lua cheia (posso executar)
Eu nem posso pensar te perder (não viverei nunca sem mim)
Ai de mim esse amor terminar (então se eu não me amo eu murcho)
Sem você minha felicidade (sem meu amor próprio não há alegria genuína)
Morreria de tanto penar (se eu não me dou vida eu morro)
Verdade" (e isso é tão verdadeiro)

Estou com você,

Raquel

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Retórica ilógica

Não sei se é o momento de diminuir a velocidade ou acelerar. Desde de que terminei o relacionamento destrutivo no qual eu estava, eu imergi em duas buscas: no entendimento do narcisismo e na luta contra Bolsonaro - seriam duas formas diferentes da mesma coisa? Enfim, o ato foi esse final de semana e agora me encontrei no primeiro dia de outubro, em uma segunda feira, cheia de expectativas para fazer um mês perfeito de dieta e exercícios físicos mas um acordar totalmente sem energia.

Acordei hoje com aquele sentimento característico da depressão: a vontade de não levantar da cama. Por mim teria passado o dia hoje na cama comendo e assistindo a uma série. Não o fiz porque sei que é um ciclo que se alimenta e também porque minha mãe estava trabalhando de casa, então ia "pegar mal". Acabei enrolando durante todo o dia, sem fazer nada de útil e sem fazer quase nada da minha lista de tarefas para o dia de hoje.

Hoje é um daqueles dias em que eu me deparo comigo mesma, com o fato de que meu problema não era apenas o meu ex relacionamento destrutivo, mas também - e talvez seja o por que - a depressão pela qual estou passando. Nos últimos meses eu vivi quase como se ela não existisse. Estava tão focada nos meus projetos profissionais que era quase como se eu tomasse o antidepressivo tão somente para cumprir um compromisso médico, porque parecia que a depressão fosse algo já resolvido.

Mas hoje ela deu as caras. Eu sei senti-la, porque ela suga minhas energias. Não sei se foi a pressão que coloquei em mim para fazer desse um mês incrível, cheio de metas batidas todos os dias etc. Na verdade eu sei que foi isso, mas fica aquela pergunta: por que planejar e cumprir virou um problema?

Tenho um texto longo para traduzir, pelo qual serei remunerada; tenho planos estratégicos de advocacia para colocar em prática, tenho um corpo para restaurar, uma alimentação para cuidar, um carro para revisar, supermercado para fazer, psiquiatra para ir, mas a vontade de ficar deitada na cama superou tudo hoje. Na verdade, para ser sincera, a única coisa que venceu foi a vontade de deixar meu quarto arrumado para não me sentir tão inútil e para ver se a motivação vinha, mas não veio. Ah, eu tomei banho para deixar meu cabelo desembaraçado caso me viesse um ímpeto de comparecer à academia, mas não fui.

Hoje foi um daqueles dias que eu perdi. Um daqueles dias em que você tem que olhar no espelho e entender que está sim passando por um problema, senão fica angustiante demais, mais. Hoje pode ser um dia ruim para uma pessoa "normal", mas pode ser o início da reativação de um ciclo destrutivo ao qual eu não posso ceder.

Penso em ir na rua, sei que tenho que ir para quebrar o ciclo, mas não vou. Fico em casa, troco de roupa, tenho vergonha de sair. Tenho vergonha de as pessoas me verem e assistirem meu caminhar com doze quilos a mais. Isso me afasta da academia e já sabemos como a bola de neve aumenta. Penso em ficar em casa e receber o pedreiro que tem que quebrar a parede e resolver um encanamento, mas adio. Veja bem, estou plenamente apta a recebê-lo, iniciar o processo, mas não quero. Antes tenho que falar com a secretária do prédio, mas não quero ter que encarar a celeuma administrativa que é lidar com as pessoas que habitam meu CEP. Essas coisas comezinhas hoje são grandes demais.

Não falo. O mundo continua a girar como se nada estivesse acontecendo. Converso sobre política com minha mãe, com minhas amigas no what'sapp e o mundo continua a girar - aliás, política é o que tem realmente me movido nos últimos meses, e me consumido também.

Hoje vi um meme que falava assim: "engraçado crescer, você percebe que metade dos seus amigos está tomando remédio por razões psicológicas e a outra metade precisa tomar", algo assim. Começo então a me lembrar de uma amiga minha próxima que tem problema com ansiedade. Desde que eu comecei a tomar antidepressivo, há um ano e meio, ela estava tomando ansiolítico, mas por um brevíssimo tempo e aí parou, voltou, parou, voltou. Mas o interessante de observar não é isso, mas sim como ela conduz esse discurso. Todos sabem. As crises, as histórias, os impedimentos, as faltas, as angústias etc são repertório público. Ela é de um estado do Nordeste, está aqui estudando no Rio custeada pela mãe - que perdeu um dos empregos, tem o apoio de um namorado super fofo que vai morar com ela em breve, tem amigas, enfim, tem toda uma rede de apoio que permite que ela more em outro estado mesmo sem trabalhar e ainda assim as fragilidades dela são um tópico constante. A nossa orientadora sente pena, fala que em breve vão conversar sobre possibilidades profissionais.

Aí eu paro para pensar. Pode chamar de recalque, mas vamos analisar. Eu moro na casa dos meus pais; se eu falasse que ia morar em outro estado com eles me custeando eles iriam rir da minha cara; até um mês atrás namorava um cara que me traía e me batia, que nunca me ajudou sequer para uma conversa em relação à depressão e praticamente ninguém sabia de nada disso. E ninguém continua sabendo de nada disso. Quando uma das amigas me pergunta alguma coisa, eu respondo pontualmente sobre o assunto, elas ficam assustadas, se compadecem, mas eu logo mudo o tópico. Do que adianta a sessão de debate amoroso? Quando eu mais precisei eu não pude falar porque seria julgada e agora que eu consegui me tirar daquela situação eu sei que se falasse tudo o que eu aceitei eu seria de alguma forma julgada também. Então para quê falar? Odeio vitimismos, mas também odeio quem acaba se beneficiando por falar e dramatizar publicamente todas as suas dores. Talvez esteja aí o meu recalque: eu não consigo falar.

Escrever para mim é mais fácil. É natural, fluido e também resguardado. Meus textos ficam em um blog que praticamente não tem acesso e meus pensamentos mais profundos estão sendo reorganizados na minha mente enquanto minha alma tenta se fortalecer depois de tantos anos de silenciamento. Então escrever tem sido esse reencontro e refúgio.

Em geral, ao final dos meus textos me vem um insight sobre o momento. Dessa vez não veio. Vim falar sobre depressão e a narrativa não encontrou um desfecho com significado. Não me lembro a última vez que escrevi um texto tão desconexo e sem uma continuidade de meio e fim. Talvez seja porque a depressão não faça sentido para mim ainda. Não a compreendo; não está madura; não tem racionalidade. E será que algum dia terá? Não sei, só sei que esse texto acabou por ser igual ao que ela representa para mim: uma completa falta de entendimento.

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Riso

Essa foi uma noite bonita.

Eu cheguei em casa cansada, depois de uma reunião do GT de comunicação e da plenária do Ato das Mulheres e achei que ia descansar. Mas assim que coloquei o pé dentro do quarto surgiu a necessidade de fazermos uma nota pra imprensa, o que nos tomou mais umas duas ou três horas da noite.

Até desligar o cérebro, fui dormir era umas três da madrugada. Não lembro com o que sonhei, mas sorri. Sorri, não, gargalhei. Me lembro de ter acordado de manhã, antes de o despertador tocar, gargalhando. Percebi o riso, pensei o quanto aquilo era engraçado e voltei a dormir.

A vida tem graça. Quando eu estou cuidando de mim e do mundo, a vida é feliz.

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O mundo

Fim do domingo me lembrei de você. Não porque fizéssemos algo muito incrível no final dos domingos ou porque estivesse com vontade de estar com você, só me bateu, de repente, uma saudade de nós. De quando eu deitava nos seus braços e você reclamava brincando, falando que eu queria ficar "dentro de você". Você tinha muita dificuldade de aceitar afeto sem fazer qualquer palhaçada para desviar a atenção. Lembrei disso e bateu aquela saudade de nós.

Caíram algumas lágrimas, me penitenciei por elas, até que olhei pro meu sabonete facial no banheiro, no qual estava escrito "cleanance" e na mesma hora entendi: calma, isso faz parte da limpeza. As lágrimas fazem parte desse processo e você não tem que se envergonhar por elas virem de vez em quando. Me acalmei. Ao total foram umas talvez sete lágrimas. Foram poucas, mas meu racional logo se preocupou. Me tranquilizei com a mensagem no banheiro e me pus a pensar... e me lembrei.

Me lembrei do final de semana anterior ao término, quando estávamos na casa da avó do seu amigo, você foi pegar minha mochila no meu carro, porque algo estava incomodando meu olho e meu produto das lentes estava na minha mochila lá fora. Voltou com a mochila e uma notícia para os amigos: vão lá porque há duas meninas negras, como vocês gostam.

Aquela interrogação na minha mente, mas decidi não dar muita atenção àquilo. Os dois saíram à caça das meninas, meu ex ficou conversando com a avó do amigo dele e eu fui ao banheiro mexer nas minhas lentes. Voltei para a sala e um pouco depois os dois meninos voltaram dizendo que tinham pegado o instagram das meninas. Muito burburinho em torno do assunto e indaguei: que história é essa de você ir lá fora e voltar falando de mulher? (na mesma hora pensei o caos social que seria se tivesse sido eu.) Começou o "deixa disso" por parte do meu ex, o "nada a ver" e a avó do amigo dele me olhava... ela já sabia do que acontecia, hoje percebo.

Um tempo depois meu ex me pediu para irmos embora. Deixei-o em casa, fui para a minha. Um tempo depois ele me ligou dizendo que a luz tinha faltado lá, perguntando se tinha também na minha casa. Um pequeno papo, desligamos.

Nada demais se naquela madrugada em que eu terminei eu não tivesse lido que por volta daquela hora em que você me ligou você tinha mandado uma mensagem para o seu amigo falando: "rápido, pergunta se as mulheres querem sair". Depois ainda ligou para ele - se eu te conheço bem, para saber se ia ter a saída, o que constatei ao olhar as chamadas no telefone.

Ao lembrar dessa cena imediatamente minha pequena saudade se esvaiu. Saudade do quê? Na minha cara, pegando a minha mochila, no meu carro, ele conseguiu articular uma traição. No meio de uma circunstância completamente mundana ele profanava.

Nesse momento entendi que era hora de colocar no lugar o globo terrestre que eu tinha comprado e guardado para dar de aniversário para ele. Aqui cabe um parênteses: antes de terminar, nas semanas, talvez meses anteriores, eu estava me sentindo muito encurralada, muito insatisfeita e infeliz porque estava entrando em um processo de conscientização de que eu nunca seria realmente feliz, em paz naquela relacionamento. Me debatia comigo mesma e com meus guias à noite. Eu tinha um deadline, pois tinha colocado em minha cabeça, depois de uma consulta astrológica, que se meu ex não se emendasse eu terminaria com ele no fim do ano.

Em uma daquelas tantas noites chorando sabendo o que eu tinha que fazer, mas sem saber como, onde arranjaria forças dentro de mim para isso, eu pensei no globo terrestre que eu tinha comprado pra ele e estava guardado. O aniversário dele seria no dia 31 de agosto e eu pensei que seria muita vitória se eu conseguisse terminar antes e colocar o globo na minha estante, como símbolo do meu triunfo, como a materialização de que, mesmo após três anos de sofrimento, eu consegui dar fim ao relacionamento.

Pois bem, depois da pequena saudade e da enorme lembrança que se abateu sobre mim nesse domingo, soube que era a hora de colocar o globo terrestre onde ele sempre pertenceu: na minha estante! Estava adiando esse momento porque como tinha dado a ele o presente na noite do dia 31 e terminei com ele na manhã no dia 1o, achei que seria doloroso demais ficar olhando para o presente que eu comprei para ele, que eu dei para ele, mas que neguei a ele ao mandá-lo embora (sim, ele teve a cara de pau de reivindicar o presente depois de eu ter visto vários absurdos no celular dele, como uma foto do pau dele - que ele não tinha mandado pra mim, e uma conversa sobre ele e os amigos terem ido para a Vila Mimosa - para quem não conhece, é o lugar em que se, digamos, contrata uma prostitua por qualquer vinte reais). Achei que seria difícil ficar lembrando de como ele acordou assustado ao eu abrir a cortina e mandá-lo embora naquela manhã.

Realmente, seria difícil... se não fosse mais difícil ainda me lembrar quantas mentiras, quantas traições, quantas humilhações, quantas agressões, quanta violência, quantos absurdos eu sofri durante os últimos três anos. Ficar com o globo não foi nada...

Coloquei o globo terrestre na minha estante e ficou perfeito. Parece que estava faltando exatamente ele no local onde está. O globo está no lugar certo porque eu mereci o mundo; eu mereço em todas as belas acepções que a palavra "mundo" pode ter. Eu conquistei esse direito. Agora, o mundo é meu. 

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Sextas-feiras

Sempre amei sextas-feiras. Dizem que por ser taurina tem algo relacionado ao meu signo, mas seja lá qual for a razão sempre tive uma relação especial com o dia. Não só porque é o início do fim de semana, mas talvez porque minha memória afetiva construiu sextas solitárias fazendo o que EU mais amava.

Quando era menor, as sextas eram dedicadas a ir com meu pai buscar minha mãe no trabalho, passarmos no mercado, irmos a uma locadora. Isso nem pode ser considerado um programa, mas era um itinerário que eu adorava. Ou mesmo a assistir chiquititas ou a um filme sozinha. Lembro de ser um dia dedicado a coisas que eu realmente gostava de fazer - principalmente sozinha.

Lembro que na época da faculdade, quando meus pais estavam mais folgados financeiramente - afinal eu estudava em uma Universidade Pública, eu ia para uma rua aqui da minha cidade, a melhor de lojas, e passava a tarde experimentando roupas. Na verdade, eu estava experimentando sonhos. A cada roupa eu me imaginava em uma situação, a cada acessório que eu pensava em adquirir havia pro trás a vontade de ser melhor: uma mulher mais forte, mais bem decidida, mais dona de si e mais atraente também. Passei meses e até anos tendo esse ritual semanal de passear pelas lojas e fazer comprinhas às sextas sozinha. E eu adorava... Tempos das vacas gordas, naturalmente.

Saí da faculdade, engatei um namoro e minhas sextas-feiras passaram a ser em um ônibus, cheia de bolsas, indo para a Barra da Tijuca, onde meu namorado morava. Por um tempo foi legal, mas depois passou a virar ressentimento o fato de eu ter sempre que ir, que nem uma muambeira, para a casa dele, conviver com os pais dele, os amigos dele, o quarto dele, tudo dele. Ele terminou comigo e meu mundo acabou durante uns cinco meses, até que conheci meu ex namorado.

Entre uma coisa e outra as sextas viraram lamúria. Ficava triste, reservada, amuada. Passei todos os cinco meses chorando. Quando eu comecei a me reerguer conheci meu ex. Logo as sextas passaram a ser um misto de ansiedade e agitação para estarmos juntos, para saber se estaríamos juntos, para nos encontrarmos.

Nossa relação foi ficando mais séria e minhas sextas-feiras passaram a ser nossos encontros. Na verdade, no início, nós estávamos juntos o tempo todo. No nosso segundo ano de namoro, porém, minhas sextas desmoronaram. Ele passou a inventar toda uma sorte de motivos para não estar comigo e sair com os amigos escondido - coisa que agora eu sei mas que passei na penumbra por muito tempo. Passei uns seis meses vivendo sextas horrorosas, porque se uma coisa que era certa era que eu nunca sabia de onde viria o tiro. Como ele apelava dizendo que tinha que ficar com a mãe, porque estava doente etc, eu tentava me adequar naquela caixa difícil de caber. Seis meses depois, esse tipo de sexta chegou ao fim: li conversas dele com os amigos dele no celular e terminei.

As duas sextas de término foram horrorosas. Lembro de ter encontrado uma amiga, me distraído, mas eu estava em pedaços. Não demorou muito para os anseios dele de voltar me convencerem. Voltamos. E na volta eu fui categórica: estou reatando o namoro, mas não vou passar pelo que eu passei com você nos últimos meses. Se for pra ser assim, tchau. Não foi. Ele entendeu bem que final de semana era sagrado, que nas sextas o nosso encontro era quase uma cerimônia de estabilidade do namoro, e poucas vezes brincou mais com a data.

Entretanto, ele levou meu aviso quase ao pé da letra e nos últimos tempos respeitou a sexta e o sábado à noite, mas resolveu farrear durante a semana. Minha intuição me dizia que tinha algo errado, mas resolvi esperar... a sexta. Chegou o aniversário dele na sexta e comemoramos. Na madrugada olhei o celular dele, conversas tortas com os amigos e adeus.

Hoje é a terceira sexta depois que terminei o namoro. Estou bem. Na primeira sexta era pós feriado e passei com minha mãe, vi filmes etc; na segunda sexta eu fui para um curso no Rio, voltei super cansada e até dormi cedo; e hoje estou aqui refletindo sobre sextas... São quatro horas da tarde, ainda é cedo. Eu nem deveria estar escrevendo isso agora. Na verdade eu vim escrever porque estou preocupada com minha saúde física que ficou tão abalada nos últimos meses por causa desse relacionamento tão absurdamente tóxico. Estou preocupada e vim escrever um pouco para aplacar minha ansiedade de continuar comendo vorazmente como tenho feito desde que ele me espancou há seis meses atrás. Não estou me escondendo atrás disso, mas certamente estou tendo que enfrentar de frente as consequências. Estou ponderando a terapia, a academia, o livro que vou ler, os métodos que vou utilizar para me curar. Penso em mim... quanto? O tempo todo.

Esta sexta eu sei que vou passar assim, na paz de estar livre e na ansiedade de ter que lidar com as sequelas que ainda estão presentes. Diante de tantas coisas importantes com as quais lidar, uma ao menos está resolvida: estou em paz! A paz de me habitar, de me bastar e de me ter. Me tenho quando me respeito, me tenho quando me converso sobre limites, me tenho quando me reflito por inteira. Me tenho aqui e agora para me ter cada dia mais. 

É assim que caminha esta sexta, no meu novo passo. Não sou astróloga, então não posso referendar, mas posso dizer, empiricamente que, pra esta taurina aqui, é inegável que as sextas representam grandemente o estado astral do meu ser e hoje, graças, sou paz - e provavelmente um livro e um chocolate.

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Sobre acordar

Estava ótima ontem antes de dormir. Coloquei um vídeo que falava sobre narcisismo para dormir, somente naquela onda de fixar as ideias. Tenho trabalhado sobre a questão assim: descobrimentos, mantras e reafirmações. Adormeci bem.

O despertador tocou às 9h30, mas eu ainda muito cansada, então coloquei para me acordar novamente às 10h30. Mas nem foi preciso, porque por volta de 10h19 acordei espontaneamente de um pesadelo. Foi preciso apenas 49 minutos para minha cabeça dar um looping em um "sonho" tenebroso.

Nele, a gente tinha se encontrado na minha casa (não nessa onde eu moro hoje, uma outra, casa mesmo) com um casal de amigos nossos, para jantar. Você fazia de tudo para ser um fofo, para eu te ver com bons olhos e querer voltar com você.

Não voltei. Me despedi e no adeus você conversou na minha frente com seu amigo, sobre o que você faria no resto daquela noite. Em vez de ir pra casa, como alguém que gostaria de retomar o relacionamento faria, você disse que estava pensando e decidiu ir com esse amigo, com uma amiga nossa e a amiga dela para Petrópolis.

No pesadelo, eu voltei para dentro de casa e me desesperei. Pensei: meu Deus, Petrópolis? Lugar de frio, de estar junto... meu Deus, vou perder. Me desesperei completamente e comecei a andar de um lado para o outro pensando em retomar o relacionamento. E aí me veio na cabeça ligar para ele e pedir pra ele ir de novo lá em casa, naquela hora. Mas e se ele se negasse? Ele voltaria da viagem só porque eu pedi?

Me lembro de um desespero muito profundo, mas também de uma racionalidade muito intensa de que não, eu não poderia voltar a namorar com ele. Não porque eu contei um pouco (quase nada) para as pessoas sobre o que ele fez comigo, mas porque EU SEI que não devo voltar a namorar com ele. Que EU NÃO MEREÇO. Meu ego, meu medo, meu sei lá o que deveria se resolver sozinho, porque eu não iria voltar atrás, tipo um: honey, suck it!

Acordei muito tensa e angustiada. Vê-lo no "sonho" foi horrível, me dilacerou. Vê-lo.. na minha frente, na minha casa que não existe, naquela relação que não era mais o que foi. O toque de realidade ficou em ele querer voltar mas agir de forma completamente contraditória, dizendo na minha frente que iria passar o final de semana viajando com um amigo e duas mulheres. Mas volto a dizer.. vê-lo foi a pior parte. Perto mas tão longe. Tão longe de eu poder voltar a me enganar.

Não queria vê-lo. Não quero nem tão cedo. Aliás, se eu puder, não quero vê-lo nunca mais. Antes de o despertador sequer tocar, abri os olhos. Acho que foi a dor, o temor sobre os pensamentos de considerar voltar.

Meu Deus, por que voltei a dormir, em vez de levantar? Tem horas que o melhor é mesmo acordar.

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